SUPLÍCIO DE UMA VIAGEM
A única vantagem de viajar de ônibus é o luxo que a pessoa se dá, em poder se atrasar horas e mais horas, e depois, por coincidência , chegar justamente em cima da hora.
É uma verdadeira aventura viajar nos ônibus que cortam o nosso sertão. Quem não acredita no destino não entra nesta viagem, pois, toda vez que chega em casa são e salvo é como se tivesse alcançado uma graça divina, devido ao péssimo estado de conservação daquela hórrida coisa motorizada, usada como meio de transporte.
É de lascar o cano a idéia de que haja algum macho que se atreva a embarcar naquela geringonça e raçudo é o que não falta, visto que o léxeu só roda cheio. E o que é pior... todos que ali estão, pagaram com o dinheiro vivo para viajar naquela roleta russa.
É incrível! É inacreditável alguém imaginar que naquele pau velho, caindo aos pedaços, chamado de ônibus, consiga se deslocar de uma cidade para outra, sem que venha ruir aquele amontoado de ferro velho.
A viagem tem suas peculiaridades que contando ninguém acredita. Só vendo para crer o feroz apetite do motorista, ele não queta a boca um só instante e se acha na obrigação de parar o carro em tudo quanto é bodega para encher a pança de coxinhas e pastéis encharcados de gorduras, para, em seguida, exibir a espetacular digestão que deixa qualquer um estupefato diante de tal quadro, levando a acreditar que o aparelho digestivo desse profissional tem a propriedade de gerar sozinho soda cáustica para ajudar a diluir os alimentos barra pesada de beira de estrada.
É inexplicável a capacidade que o cacareco tem de chegar ao destino desobedecendo todas as leis da gravidade.
O ônibus, se é que podemos chamar assim aquela lata enferrujada, parece dar vida em tudo o que há dentro dele. Os vidros tremem tanto, dando a impressão que vão sair voando. A porta balança, a poltrona sacode, o carro estremece, virando de um lado para o outro, como se quisesse beijar o chão, na hora das curvas. É o inferno em vida. O calor é escaldante, a temperatura insuportável, e aumenta na medida que o carro avança ladeira acima, e aquela máquina medonha, trabalhando no topo do seu limite, deixa a idéia de que vai explodir a qualquer momento. O ronco barulhento leva a acreditar que o motor trabalha ali pertinho, no pé da broca do ouvido das pessoas, criando uma estranha sensação de que o mundo está desabando. O martírio só acaba quando o motorista pára o buzu e, imediatamente, irradia um ar de alívio no semblante dos passageiros, que deixam escapar um tênue fio de alegria no tímido sorriso que se apaga logo em seguida, quando o vão do silêncio é invadido sutilmente por um fedorzinho arretado de fedido, vindo do pútrido vaso sanitário apelidado de toalete. E aquele povo, indiferente, a tudo assiste achando que o desconforto e a exploração dos gananciosos donos das empresas de ônibus, é coisa de Deus e, esquecido ao léu do descaso das leis de proteção aos homens, segue seu frio caminho se distanciando cada vez mais de um novo horizonte.
Vitória da Conquista, Bahia, 01 de abril de 1996 |