Na Sinuca
--Não! Não! Hoje, não!
--O que há demais nisso? Deixando a vida passar em branco?
--Bola sete no canto esquerdo.
--Viu? Passou! Vai perder até as cuecas.
--Não tem problema, o dinheiro é meu!
--Olha lá! Olha lá! Olha lá!
--Que alegria é essa? Olha lá o quê?
--Seu César!
--Que que tem demais nisso?
--Se não o chamar ele vai embora.
-- Não tenho pressa.
--Ele pode demorar de aparece novamente.
--Vixe! Que insistência da gota serena, rapaz.
-- Chame-o! Está na hora, é quase meio-dia.
--Eu já falei que hoje não e pronto!
--Não acredito! Ele está saindo do salão, chame-o antes que vá embora.
--Seu César!
--Muito bem rapaz, eu sabia que você não ia resistir.
--Pois não! Com gelo, Seu William?
--Seco!
--Veja! O uísque chegou!
--Pode deixar em cima da mesa, Seu César, obrigado.
--Agora vá lá e saboreie essa preciosidade. Deguste suavemente, sem pressa, sem medo, sem culpa e deixe a vida fluir goela abaixo, e o calor dessa delícia colocar em ordem seu sistema nervoso.
--Satisfeito?
-- Confesse que gostou. Tá sentindo a diferença? Olha só o ar de felicidade estampado no seu rosto. A beleza da vida encontra-se nessas pequenas coisas. Agora as bolas vão deslizar sobre o pano, feito manteiga em chapa quente, e estalar as bocas das caçapas. Pode apostar.
--Bola sete no canto direito.
--Viu? Entrou justo feito boca de bode.
--Melhorou um pouco. Parece que a talagada botou a casa em ordem.
--E você é mal-agradecido, porque o copo já tá seco. Olha lá o garçom de novo, aproveite e peça outro!
--Calma, né! Dê um tempo!
--Tempo? Que papo furado é esse? Se você pode ser feliz agora, para que protelar? Afinal, vai ou não vai pedir outro?
-- Certo! Pela última vez! Seu César! Do mesmo, por favor!
--Muito bem, é assim que se fala. Você tem que participar das coisas boas da vida. Se divertir, e beber um pouco faz parte da diversão. Os médicos até falam que vida sedentária mata. Portanto, aproveite a vida.
--É duro essa sua ladainha o dia todo no pé da broca do ouvido.
--Tá na hora de pedir a terceira dose.
--Assim na bucha? Pega leve, o efeito tá subindo rápido demais.
--Assim que é bom. Se deixar espaço grande demais perde o barato. Mas se não quiser, tudo bem, não peça mais do mesmo, peça com umas pedrinhas de gelo para aliviar um pouco.
--O que eu quero mesmo é me concentrar no jogo, mas você não deixa. Essa sua insistência me irrita. Por que não some? Xô, suma da daqui!
--Deixa de onda! Eu só estou lhe ajudando, quando um não quer, dois não brigam. Já que você não quer mais uísque, então, peça uma cervejinha geladinha para rebater.
--Certo! Certo! Garçom, uma cervejinha gelada para rebater, por favor! Satisfeito? Agora suma da minha vida! Deixe-me em paz. Está ouvindo? Ei, cadê você? Onde se escondeu? Ué, foi embora? Graças a Deus, agora estou livre, posso jogar em paz e me libertar dessa bebedeira danada.
--Seu William, pediu para fechar a conta?
-- Sim, pode fechar a conta, já bebi demais por hoje, Aliás, não. Seu César, por favor, traga mais uma geladinha como saideira.
--Chamou, Seu William?
--Sim, seu César, a última.
--Seu William?
--Sim, estupidamente gelada, para encerrar.
--Seu William, não acha que...
--Claro, de preferência, geladinha.
--Sério?
--Sim, a última das últimas.
--Seu William, quem vai dirigir?
--Eu mesmo, mas garanto que esta é a última.
--Seu William!
--Sim! Agora é de verdade, mesmo. A última.
--Seu William!
--Isto mesmo, por favor!
--Seu William!
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